Mercosul–UE: o novo acordo que redesenha o comércio global

Após um quarto de século de tratativas, Mercosul e União Europeia finalmente selaram um dos mais ambiciosos acordos comerciais da história recente.

A assinatura ocorre em um momento de fortes turbulências no comércio global, marcado pela escalada do protecionismo, pelo redesenho das cadeias produtivas e pela crescente instrumentalização da política comercial como ferramenta geopolítica.

Fonte: Unipa | Da direita para a esquerda: Líderes da América Latina.
Brasil: Mauro Vieira (Ministro das Relações Exteriores), Uruguai: Yamandú Orsi (Presidente), Argentina: Javier Milei (Presidente), Paraguai: Santiago Peña (Presidente), Comissão Europeia: Ursula von der Leyen (Presidente), Conselho Europeu: António Costa (Presidente), Bolívia: Rodrigo Paz (Presidente) e Panamá: José Raúl Mulino (Presidente).

Nesse contexto, o acordo surge como uma aposta estratégica na abertura econômica e na previsibilidade, ao propor a redução de barreiras tarifárias e não tarifárias, o estímulo ao fluxo de bens e serviços e a criação de padrões comuns em áreas sensíveis, como propriedade intelectual, compras públicas e cooperação regulatória.

Ainda assim, o tratado permanece no papel, à espera de sua entrada em vigor, porém, com mais chance de se concretizar.

Os dois pilares do acordo

A arquitetura do acordo é dividida em dois pilares jurídicos complementares. De um lado, está o Acordo Provisório de Comércio, focado exclusivamente em regras comerciais.

De outro, o Acordo de Parceria Mercosul–União Europeia amplia o alcance do compromisso ao incorporar dimensões políticas, regulatórias e setoriais. Para que esses instrumentos se tornem realidade, ambos os blocos precisam superar as etapas internas de aprovação.

No Brasil, a palavra final cabe ao Congresso Nacional. Já na União Europeia, o acordo comercial exige apenas o aval do Parlamento Europeu, enquanto o acordo de parceria demanda ratificação individual dos parlamentos nacionais.

Diante desse rito mais célere, a expectativa é que o braço comercial do acordo seja implementado primeiro, abrindo caminho para uma integração mais profunda entre os dois blocos. Uma vez concluído o processo de ratificação, o acordo entra em vigor no primeiro dia do mês seguinte à sua formalização. O desenho jurídico do tratado também permite uma aplicação escalonada.

O impacto do novo acordo comercial em 2026

Em 2025, a União Europeia consolidou-se como uma parceira estratégica para o Brasil, absorvendo US$ 49,8 bilhões em exportações (14,3% do total nacional), com 70% desse fluxo concentrado nos Países Baixos, Espanha, Alemanha, Itália e Bélgica.

O novo acordo comercial prevê a eliminação de tarifas em 95% das linhas tarifárias, beneficiando produtos como petróleo, café, soja e celulose; desse montante, US$ 21,6 bilhões já possuíam tarifa zero, enquanto US$ 13,7 bilhões terão isenção imediata e US$ 11,5 bilhões passarão por uma redução gradual em até 12 anos.

Contudo, cerca de 5% das exportações — focadas em setores sensíveis como carnes, açúcar e etanol — estarão sujeitas a contingentes tarifários e mecanismos de salvaguarda rigorosos, que permitem a suspensão de preferências caso investigações comprovem prejuízos causados por quedas de preços ou aumentos súbitos no volume de importação.

Tabela 1: Principais Destinos das Exportações (2025)

Concentração de 70% das vendas para o bloco europeu.

PaísValor (US$ Bilhões)Participação no Fluxo UE
Países Baixos11,7Principal parceiro comercial
Espanha8,82º maior destino
Alemanha6,53º maior destino
Itália5,44º maior destino
Bélgica4,05º maior destino
Outros países da UE13,4Restante dos 27 países
Total Global UE49,8100% (14,3% do total Brasil)

Tabela 2: Regime de Tarifas e Prazos do Acordo. Como ficarão as taxas para os produtos brasileiros.

Categoria de ProdutoImpacto TarifárioPrazos de Liberalização
Já Isentos (43,4% do valor)Mantém Tarifa ZeroJá em vigor (Petróleo, Celulose, etc.)
Não SensíveisEliminação ImediataAssim que o acordo entrar em vigor
Em TransiçãoEliminação GradualReduções lineares em 4, 7, 8, 10 ou 12 anos
Sensíveis (Carnes, Etanol, Açúcar)Contingentes e SalvaguardasSujeito a cotas e investigação de preços/volume

Impactos no mercado de trabalho e bem-estar

O acordo Mercosul–União Europeia tende a gerar efeitos positivos no mercado de trabalho brasileiro, segundo o relatório macro da XP Macro Research. As estimativas indicam um aumento aproximado de 0,41% nos salários reais, impulsionado pela maior demanda por fatores de produção à medida que a economia se expande.

O bem-estar dos consumidores também apresenta ganho líquido, ainda que mais moderado, refletindo preços mais baixos e maior oferta de bens.

Efeitos sobre exportações e importações

Os impactos sobre o comércio exterior evoluem de forma distinta ao longo do tempo. Em volume, exportações e importações crescem cerca de 3%. As importações aumentam mais rapidamente nos primeiros anos, beneficiadas pela queda nos preços dos produtos europeus, com pico em meados da década de 2030.

As exportações avançam de forma gradual, acumulando um ganho estimado de US$ 11,6 bilhões até 2040, sustentado pela redução de tarifas na União Europeia, ampliação de cotas agropecuárias e menor custo de produção no Brasil.


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Setor mais beneficiado: agronegócio

O agronegócio brasileiro é o principal beneficiário do acordo, com crescimento estimado de cerca de 2% na produção, equivalente a quase US$ 11 bilhões. Os ganhos concentram-se em segmentos como aves e suínos, alimentos processados, óleos e gorduras vegetais e pecuária.

Esse avanço contribui positivamente para o saldo comercial, embora nem sempre resulte em aumento proporcional da produção doméstica.

Ajustes na indústria de transformação

Na indústria de transformação, os efeitos são heterogêneos e envolvem realocações internas. Setores como máquinas e equipamentos, têxteis, farmacêuticos, veículos e autopeças tendem a registrar quedas, enquanto calçados, couro, madeira, celulose e papel e metais não ferrosos apresentam ganhos.

O acordo não indica desindustrialização, mas sim uma recomposição produtiva, com maior concorrência em setores intensivos em tecnologia e fortalecimento de áreas onde o Brasil é competitivo.

Comércio bilateral e desvio de comércio

O comércio entre o Brasil e a União Europeia está em forte expansão, mas de forma desequilibrada: enquanto o que vendemos para eles cresceu 20%, o que compramos deles disparou mais de 70%.

Esse salto nas compras — principalmente de produtos industrializados (manufaturados) — acabou prejudicando o saldo comercial do Brasil nessa relação. Na prática, o país passou a gastar muito mais do que ganha com os europeus.

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Contudo, nem todo esse aumento é “dinheiro novo” saindo do país. O que ocorre é um desvio de comércio: o Brasil parou de comprar esses mesmos produtos de outros países para comprá-los da União Europeia, o que ajuda a equilibrar o impacto total nas contas brasileiras.

Avaliação geral dos impactos econômicos

Em síntese, as simulações do IPEA apontam que o acordo Mercosul–União Europeia gera ganhos macroeconômicos moderados e positivos para o Brasil, com aumento da atividade econômica, do investimento, dos salários reais e do bem-estar.

Mais do que efeitos imediatos sobre o saldo comercial, a importância do acordo está em seu potencial de reduzir custos, elevar a produtividade e reconfigurar a estrutura produtiva brasileira no médio e longo prazo.

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