Google emite dívida que vence em 100 anos

As big techs estão derretendo. Google, Amazon e Microsoft acumulam quedas consistentes há meses, exatamente as empresas que mais investiram pesado em inteligência artificial.

O mercado começa a questionar: onde está o retorno real desse dinheiro todo? Os fundamentos clássicos do value investing — lucro, fluxo de caixa, ROI palpável — continuam escassos ou adiados para um “futuro promissor”. Enquanto isso, os investimentos em IA atingem proporções históricas e sem precedentes. Cheira a bolha?

Fonte : FILE PHOTO: The logo for Google LLC is seen at the Google Store Chelsea in Manhattan, New York City, New York, U.S., November 17, 2021. REUTERS/Andrew Kelly/File Photo

Os fundamentos de Charlie Munger

Em um dos encontros anuais da Berkshire Hathaway, Charlie Munger contou uma história reveladora. Nos anos 90, durante a bolha da internet, alunos de uma universidade disseram a ele que o velho ROI tinha perdido a importância: o que valia agora eram cliques, engajamento, “eyeballs”.

Munger, fingindo não entender, perguntou: “E quando vem o dinheiro de verdade?”. O jovem respondeu que ele “não entendia o novo mundo”.

Munger chamou essa frase de extremamente perigosa: “Dessa vez é diferente”. Décadas depois, a lição segue a mesma — e o mercado de IA parece estar recitando o mesmo roteiro. Sem lucro visível no horizonte, o castelo de cartas fica cada vez mais frágil.

Leia aqui : Alphabet se torna a maior aposta tech da Buffett.

Google emite título de dívida com vencimento em 2126

Imagine assinar uma dívida hoje que só será quitada pelos seus tataranetos em 2126. Foi exatamente isso que o Google fez ao emitir títulos de dívida que vencem em 100 anos, captando US$ 32 bilhões para turbinar sua artilharia na corrida pela inteligência artificial.

O movimento é o símbolo de uma era de investimentos colossais: segundo o Morgan Stanley, os gigantes de tecnologia devem buscar US$ 400 bilhões no mercado apenas este ano — um salto absurdo frente aos US$ 165 bilhões de 2023. É o mercado financeiro apostando todas as suas fichas (e o próximo século) em um futuro totalmente movido por algoritmos.


O Google emitiu títulos de 100 anos remunerando os investidores com juros ao longo de todo o século. Esse movimento raro garante capital imediato para a corrida da IA, enquanto o mercado aposta na perenidade da empresa até o próximo século.

Na prática, os investidores compram um fluxo de renda garantido que atravessa gerações, confiando na solidez máxima da Alphabet. Isso mostra um cenário que revela uma aceleração agressiva dos investimentos, do endividamento e do ciclo de capital para sustentar a infraestrutura da IA.

Nem todo mundo tem o caixa do Google para queimar em IA

O Google fatura +130 bi/ano, gera cerca de 164 bilhões de caixa operacional e ainda assim opta por se endividar para financiar os gigantescos U$S 180 bilhões de investimento em IA, preservando sua blindagem financeira.

Nem todas as big techs têm o mesmo “colchão”. A Amazon, por exemplo, já vem sofrendo no mercado, tem geração de caixa bem mais frágil e provavelmente vai precisar se endividar sem a mesma margem de segurança que o Google possui.

O futuro pode repetir o passado?

Fonte : Unite.IA

O presságio de Michael Burry


Ao emitir uma dívida de 100 anos, o Google repete um movimento raro que Michael Burry — o investidor da “Grande Aposta” — associa ao auge da Motorola em 1997, ano em que ela brilhou no topo antes de despencar para a 232ª posição global.

Esse endividamento agressivo alimenta a projeção do Morgan Stanley de que os hyperscalers tomem US$ 400 bilhões este ano, acelerando um ciclo de capital sem precedentes para a infraestrutura de IA.

O pesquisador Gary Marcus adverte que o problema dos LLMs é de arquitetura e não de falta de chips, argumentando que aumentar data centers não resolve falhas estruturais de raciocínio.

Assim, enquanto o mercado financia uma expansão colossal de hardware, o alerta de Marcus e a analogia de Burry sugerem que apenas capital pode não ser suficiente para evitar que a história da Motorola se repita em uma nova escala.

O dilema do trilhão: Retorno real ou bolha tecnológica?

Vivemos uma era em que investimentos colossais exigem prudência, enquanto o mercado questiona se o retorno dessa conta bilionária chegará a tempo de evitar uma disrupção sistêmica.

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Com as Big Techs projetando um CapEx de US$ 650 bilhões para 2026 — lideradas pelos novos patamares de US$ 180 bilhões do Google e US$ 200 bilhões da Amazon —, a pressão sobre o fluxo de caixa nunca foi tão alta.

O movimento de Elon Musk, ao fundir a SpaceX com a xAI em uma transação de US$ 1,25 trilhão, eleva a aposta a níveis estratosféricos, transformando a inteligência artificial no maior teste de solvência e visão estratégica da história moderna.

Entre a euforia dos investimentos de trilhões e os avisos da história, o mercado agora se divide entre financiar o maior salto tecnológico da humanidade ou a maior bolha de capital já vista.