O mundo atual vem marcado pela polaridade e não menos pela interdependência. O Brasil está em uma posição estratégica entre oportunidades e desafios do cenário macroeconômico em transformação.
Este artigo analisa como a chamada “Guerra Fria 2.0” entre Estados Unidos e China, combinada com eventos geopolíticos de curto e longo prazo, está redefinindo o comércio global e o papel do Brasil nesse tabuleiro.
A dualidade dos eventos geopolíticos contemporâneos
Hoje os eventos podem ser divididos em dois tipos:

- Microeventos geopolíticos – curtos, de 3 a 5 anos de duração, são os conflitos regionalizados como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, hoje é a principal ameaça à estabilidade da Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.
Há também as contínuas tensões entre países do Oriente Médio – Irã, Hamas, Hezbollah e Israel. O resultados diante desses conflitos afeta indiretamente as cadeias de suprimentos, preços das commodities, logística, enfim, todo o fluxo comercial internacional.
- Macroeventos geopolíticos – o tempo é maior de duração dos conflitos, vai de 20 a 30 anos. Como foi a guerra fria entre Rússia e EUA. No contexto atual, esse modelo se aplica aos Estados Unidos da China.
Chamada de “Guerra Fria 2.0”, abrange economia, tecnologia, influência diplomática e poder militar, gerando clima de incerteza que compeli países como o Brasil a repensar suas parcerias e relações comerciais.
A estratégia está em pauta. Os principais players estão usando em seu benefício a polaridade em que o mundo se encontra hoje, criando um jogo de interesses.
Relações estremecidas entre Brasil-EUA
No início de julho, o governo americano impôs 50% de tarifas sobre produtos importados do Brasil e, na sequência, veio a longa lista de exceções logo após o comunicado. Os produtos que permanecem na lista do tarifaço com 50% a mais foram carnes, suco de laranja, têxteis, calçados e café.
São produtos sem muito valor agregado e, na sua grande maioria dos produtos importados pelos EUA são ferro e aço, máquinas e motores, tecnologia. Apesar do aumento, o preço dos itens tarifados com 50% tendem a ficar mais baratos internamente, aqui no Brasil e, em pouco tempo. É a lógica da oferta e demanda, a quantidade aumenta e o preço cai.
O PIB dos EUA em 2024 foi de 29,18 trilhões de dólares (conforme dados do World Bank e importações anuais de 3,6 trilhões de dólares, representa 12% do PIB, ou de tudo o que é produzido dentro dos Estados Unidos.
O Brasil possui uma participação mínima, em torno de 4 mil empresas exportam para os EUA, o que gera um resultado de 1,1% desse mercado (de 3,6 trilhões de dólares), exportando cerca de 41 bilhões de dólares anualmente. Os produtos saem predominantemente do sul e sudeste do Brasil.
Embora o Brasil registre um déficit comercial em suas relações com os Estados Unidos, com importações superando as exportações no comércio bilateral, o país mantém um superávit na balança comercial global, impulsionado por exportações robustas para outros parceiros, como a China e a Argentina.
Aliás, no comércio bilateral com a China, o Brasil possui superávit, o que já é ponto positivo, exporta mais do que importa, mas mais ainda, o grande superávit do Brasil no comércio internacional é justamente com a China que possui boas relações e inclusive alinhamento político. Lula esteve com Xi Jinping por três vezes no último ano.
Contudo, a deterioração nas relações com os EUA se dá pela diplomacia do Itamaraty, ligada à falta de diálogo direto entre Brasília e Washington desde 20 de janeiro, desde então, o Presidente Lula enviou apenas um e-mail para a Casa Branca, demonstrando seu alinhamento mais à esquerda.
Nesse imbróglio, o senador por São Paulo, Marcos Pontes, montou uma comitiva e foi para Washington para tentar propor alternativas às políticas de Trump, mas foi recebido com indiferença.
A retórica brasileira, que critica a hegemonia do dólar e defende alternativas ao sistema financeiro global, contribuiu para essa tensão. Essa postura, embora alinhada com interesses de longo prazo, como a diversificação econômica, colocou o Brasil em uma posição vulnerável frente às políticas protecionistas americanas.
E contrárias ao fluxo atual geopolítico, Trump, o homem mais poderoso do mundo está dando as cartas no momento, não é prudente querer rechaçar o sistema dizendo que pelo Brics os países envolvidos não usariam dólar além e de outras retóricas anti americanas do presidente Lula colocando o Brasil em uma posição no mínimo vulnerável.
A desdolarização e o papel dos Brics
A principal estratégia dos Brics seria a criação de um sistema substituto ao sistema SWIFT com o objetivo de autonomia financeira, sem dependência do dólar.
Sistema SWIFT – Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication – o sistema global de mensagens financeiras usado para transferências internacionais entre bancos. O SWIFT é uma rede global que facilita a comunicação segura entre mais de 11.000 instituições financeiras em mais de 200 países diferentes.
Ele não transfere dinheiro diretamente, mas envia mensagens padronizadas com instruções de pagamento, executa e garante transações internacionais rápidas e seguras. Cada instituição aderente tem um código SWIFT/BIC (ex.: HBUKGB4B para o HSBC em Londres) que identifica o país, cidade, banco e agência.
Leia também: EUA estão sinalizando um rompimento gradual com o Brasil
O Presidente Lula se posicionou como líder dos Brics e menciona com frequência sobre essa agenda, a necessidade de uma moeda única como alternativa ao dólar entre os países que compõem os Brics. Essa fala anti americana afronta a soberania do dólar que Trump tanto defende, gerando um clima hostil entre Brasil e Estados Unidos.
O mundo opera em modelo de Soma Zero
Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos BRICS, argumentou que vivemos uma “recessão geopolítica”, e essa é a Gerra Fria 2.0, um período de desconfiança e jogo de soma zero, onde o ganho de um país representa a perda do outro.
Fazendo uma analogia a Teoria dos Jogos de John Nash que ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1994. O equilíbrio de Nash (1950), que descreve uma situação em que, em um jogo, nenhum jogador pode melhorar seu resultado mudando de estratégia unilateralmente, assumindo que os outros mantêm suas estratégias.
A teoria explica como em um jogo de soma zero, onde o ganho de uma nação implica a perda de outra, cada país escolhe estratégias (como tarifas ou sanções) que maximizam seus próprios interesses, presumindo que os outros farão o mesmo.
No vídeo vamos desvendar os conceitos de jogos de soma zero e jogos de soma não zero e como esses modelos influenciam nossas relações do dia a dia.
Jogos de Soma Zero vs. Soma Não Zero: Entenda e Transforme Suas Interações
Esse cenário, comum na atual recessão geopolítica, resulta em um equilíbrio onde ninguém melhora sem prejudicar outro, dificultando a cooperação global e reforçando a lógica de soma zero descrita no contexto das disputas comerciais e tecnológicas de hoje, diferentemente das perspectivas nos anos 2000 com o boom da tecnologia que beneficia países emergentes como o Brasil.

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O Brasil tem uma bolsa de commodity, basicamente. Soja, minério de ferro, petróleo, carne e café representam, juntos, aproximadamente 18-27% do fluxo de negócios da B3 em 2025, com maior peso de minério de ferro (via Vale) e petróleo (via Petrobras)
Uma economia dependente de exportações agrícolas e minerais, essa fragmentação representa um desafio. Durante anos, o país se beneficiou de um ambiente global mais colaborativo, mas a nova realidade exige uma postura mais proativa.
A América do Sul fora do caos
Diferentemente de regiões como o Oriente Médio e a Europa, a América do Sul permanece relativamente imune a conflitos armados de grande escala. É uma vantagem estratégica em um mundo onde cadeias de suprimento globais buscam segurança e previsibilidade.
O Brasil, como líder regional, visto como celeiro do mundo, tem a oportunidade de atrair investimentos em setores como manufatura, tecnologia e energia renovável, aproveitando a onda global de reindustrialização americana.
Contudo, a burocracia interna e falta de acordos comerciais robustos, que limitam sua competitividade em comparação com o Sudeste Asiático. Para capitalizar essa janela de oportunidade, o Brasil precisa de políticas públicas que incentivem a inovação e facilitem o acesso a mercados internacionais. O Brasil é relativamente fechado no comércio internacional, com exportação de 20% do PIB, apenas.
A ascensão da IA americana
Os Estados Unidos consolidam sua liderança global em inteligência artificial (IA), com empresas como Nvidia, Microsoft e Apple impulsionando inovações que prometem revolucionar a produtividade global.

Políticas de desregulamentação e incentivos fiscais, como o Big Beautiful Bill, reforçam a atratividade dos EUA para investimentos, atraindo até mesmo figuras como Bernard Arnault, o bilionário francês dono de marcas com Louis Vuitton que vê no mercado americano um motor de crescimento.
Além de acordos bilionários com a União Européia e Arábia Saudita em investir 600 bilhões de dólares cada nos EUA nos próximos anos com objetivo de fortaleceer a industria interna.
Donald Trump viabilizou investimentos em Bitcoin ao assinar o GENIUS Act, que regula stablecoins, e uma ordem executiva criando uma Reserva Estratégica de Bitcoin, promovendo clareza regulatória e confiança no mercado cripto.
Para o Brasil, a revolução da IA ainda é um sonho distante. Sem investimentos significativos em tecnologia, educação e infraestrutura, permanece preso a um modelo econômico baseado em commodities.
O Brasil à deriva
O Brasil está em um momento crítico de sua trajetória geopolítica. A rivalidade entre Estados Unidos e China, a liderança no BRICS e a estabilidade da América do Sul faz com que o Brasil precise adotar uma diplomacia comercial mais assertiva, investir em inovação e diversificar suas parcerias econômicas.
A estabilidade regional e o superávit comercial com a China são ativos valiosos, mas o país deve superar sua complacência histórica e buscar uma presença mais robusta no mercado americano.
